Memorial FRED PINHEIRO (1953-2010)


O TEMPO PASSA, A MEMÓRIA E O TRABALHO FICAM!

Fred Pinheiro surgiu na nossa vida em 1986. Convidado pelo amigo Guti Fraga, ele subiu o Morro do Vidigal para ajudar a fundar o Nós do Morro. Naquele tempo, aliás, nem éramos Nós do Morro ainda. O que havia era um grupo de pessoas. Algumas, que trabalhavam com teatro. Outros tantos, que buscavam um espaço para desenvolver ou apresentar o seus talento. A missão apresentada para esta galera pelo Guti: criar um núcleo de teatro alternativo no Vidigal. Junte-se esses ingredientes à disponibilidade de um espaço – um centro comunitário de um missionário austríaco-alemão que não funcionava por falta de licença – e temos aí o caldo de cultura onde foi gestado o projeto que ao longo dos últimos 24 anos se consolidaria como o atual Nós do Morro.

“Quem é esse cara, meu Deus?!?”

Fred pinheiro
Lembro que a chegada de uma figura excêntrica como a do Fred causou furor entre os pioneiros do Nós do Morro, todos moradores do Vidigal. “Pô, esse amigo do Guti é esquisito pra chuchu!”, sussurrávamos pelos cantos do Centro do Padre Leeb. O medo de todos era que o sujeito sério, magro, barba, chapéu tipo filmes anos 50, cigarro Hollywood no canto da boca (na bolsa ele carregava vários maços), nos desse um esporro por atrapalhar a sua concentração.
Eram dele os discos com umas músicas esquisitas: uma tal de Laurie Anderson, um sujeito com nome de Vangelis, óperas ou trilhas de filmes, como o Blade Runner ou Indiana Jones. Este era um outro detalhe que contribuía para dar um ar marciano para aquele novato de Vidigal que passou a ocupar o espaço do grupo junto com a gente. O morro tinha samba, pagode, forró, discotheque, mas esse negócio de Laurie Anderson e Vangelis já era um pouco demais, sujeito. 
Mas, depois dos primeiros dias, o “bicho papão” já assustava bem menos a galera. Aí, a gente já se permitia a fazer até algumas gracinhas. Sempre pelas costas dele, é claro. “Fica quietinho aí, senão em mando chamar o Fred pra te pegar!!!!”, “Se você não me obedecer, eu mando chamar o Fred, hein???”, sacaneávamos uns aos outros às risadas, mas sempre com a visão lateral bem atenta para ver se ele não estava por ali, rondando, fiscalizando os corredores do Centro do Padre Leeb. Éramos menos de 15 nessa época, que, na sua imensa maioria nem imaginavam no que ia dar aquela idéia maluca de fazer teatro num espaço que fora projetado para ser uma igreja.

 

“Faça-se a luz!”

luz spot fred pinheiro iluminacao
E o Fred, o Fredera, se revelou mesmo para todo mundo, quando começou a trabalhar no seu projeto de iluminação alternativa. As oficinas eram verdadeiras descobertas para muitos de nós que só conheciam luz para iluminar casa, quintal ou ruas e lâmpadas G&E, Osram ou Philips. Foi ele quem ensinou o pessoal a aprender a “ver a verdadeira luz” e todas as possibilidades que ela oferece para a criação de ambientes e climas num espaço cênico. 
Virado o ovo de Colombo para cima,  ficou fácil para o pessoal sair pelo mundo falando de “spots”, (tudo feito com material reciclado de latinhas de leite em pó, de tinta e de óleo de cozinha, que era o projeto alternativo concebido e desenvolvido por ele em 1986). Era deste material reciclado que o Fred fazia surgir os fresnéis, os elipsoidais, os focos, o diabo a quatro. E aí, o Fred saía do sério. Seus olhos brilhavam e o entusiasmo dele contagiava todo mundo. A primeira ribalta, feita pela gente mesmo, a gente nunca esquece, professor Fred.  
Pouco tempo depois, ele resolveu morar no Vidigal. Num quarto alugado na casa da Dona Hilma, mãe do Xandinho “Cuscus”, ele montou o seu espaço de criação, laboratório e quartel-general, cheio de discos e livros. Ali, o Fred fez, à mão, os primeiros materiais gráficos do grupo: folders, programas e cartazes dos nossos primeiros espetáculos: Encontros e Torturas de um Coração. O Nós do Morro já tinha virado Nós do Morro (niguém mais sabe ao certo como surgiu o nome mas, certamente, o Fred teve sua parcela de culpa nesta criação também). O “homem” já estava aclimatado, já pertencia ao Vidigal e já entendia os códigos locais. Já era visto pelo pessoal do morro como um dos “malucos do teatro” também.

 

“Fred das Selvas” 

E no dia em que iríamos nos apresentar na Ilha do Governador mas o espetáculo acabou cancelado por falta de condições da Lona Cultural? Convencidos pelo motorista do ônibus que a gente fretou, resolvemos aproveitar o resto do dia livre numa reserva florestal localizada em Nova Iguaçu, com rios e cachoeiras, mata atlântica e outros bichos mais. Neste dia, se revelou para todo mundo o “Fred das Selvas”, o “Fred Bicho Grilo”, o “Fred naturalista”, de bermudas, sem camisa e com um cajado nas mãos, liderando a “expedição” do Nós do Morro na Reserva do Tinguá. Com que felicidade ele entrava no rio, parava para examinar as árvores, qual um “Darwin tropical”. Com aquele pedaço de pau nas mãos, parecia sempre pronto para enfrentar um possível leão ou fera que resolvesse cruzar o nosso caminho. E lá se vão mais de 20 anos mas, na lembrança, parece que foi ontem.

“Cai a máscara”

Fred pinheiro sorrindoNo dia-a-dia, a cara séria, circunspecta, continuava. Mas algumas más-línguas já relatavam ter flagrado uns sorrisos suspeitos, umas risadas mais rasgadas dele, sempre em cantos escuros do Centro do Padre Leeb, é claro, e, claro também, sempre negadas por Fred. Só que, aí, a máscara já havia caído e a personagem à Bogart que ele criou tinha sido totalmente desmascarada. “Tá bom, gente, o cara pode ser um pouco rabugento, mas é gente fina para caramba, pô!”
Em meados dos anos 90, ele se mudou do Vidigal. Mudou, mas não foi embora, se é que se pode entender uma coisa dessas. Morando na Gávea, manteve o coração e a cabeça no Nós do Morro. Exemplo disto? Em 1996, ele foi um dos que quebraram pedra e carregaram concreto (tem ortopedista ganhando dinheiro até hoje com as nossas colunas) para construir o nosso teatro, nos fundos da Escola Municipal Almirante Tamandaré. 

Teatro pronto, o Fred parou? Pois sim! Foi ele quem iluminou todos os nossos espetáculos e, certamente se tornou a fonte de luz na cabeça de muita gente no grupo que enveredou desde então pelo caminho da iluminação. Assim como também iluminou o caminho de muitos que optaram pela atuação teatral. Do primeiro ao último, todos os nossos espetáculos foram iluminados pelo Fred. Foram tantos que não cabem nem em todos os dedos das mãos: Encontros, Torturas de um Coração (nesse, baixou o Fred Spielberg, que vibrava com um efeito especial concebido por ele depois de dias a fio de estudos no seu laboratório de alquimia), O Inglês Maquinista, Hoje é dia de rock, A Cadeira do Constantin, Machadiando, Abalou, É proibido brincar, Noites do Vidigal, Burro sem Rabo, ou..., Patunaíma (do qual ele também foi diretor), Os dois cavalheiros de Verona, Carmem de Tal e Machado a 3 X 4. 


“Fred Stanislavski e a hora da partida”

Quem não se lembra das aulas do Fred “professor” sobre o processo de Stanislavski? Muitos dos atuais veteranos do grupo participaram da montagem da “Cadeira do Constantin”, espetáculo de final de ano que resultou do processo de estudo sobre “A preparação do ator”, livro do teórico e diretor russo.

img 0128Mas, agora, é chegada a hora da partida. Se fosse num filme ou, mais apropriadamente, numa peça de teatro, a cena ficaria fácil de ser desenhada: o Fred, chapéu na cabeça,  camiseta do grupo, colete e tênis bati-buti (o figurino continuou o mesmo do primeiro dia em que ele chegou no Nós do Morro!) andando em direção a um navio todo iluminado e a galera toda lá, lotando o cais. Num primeiro momento, todo mundo calado, pois ninguém seria besta de ficar gritando perto do Fred Pinheiro, por medo de levar um esporro. Assim que ele acabasse de passar em direção ao barco e nos desse as costas, o burburinho iria crescendo, todo mundo torcendo para ver qual mágica ele teria preparado desta vez.

Aí, ele sobe no navio, a gente berrando pra ele. Ele, todo sério, pára, olha, pede silêncio! A luz vai caindo em resistência... Black out! Surpresa geral.  Silêncio total. Murmúrios de decepção... “Pô, será que vai acabar na escuridão???” “Merda, acende uma vela e vê se pára de ficar pisando na porra do meu pé!!!!” “Fica quieto, que ele pode ouvir e te dar uma bronca, sua besta...”
Aí, bum! A luz volta à toda força. Todo mundo gritando: É o Fred! É o Fred, pô! O navio se ilumina todo, mas em vez de avançar na água, ele, tal qual o disco voador do Proibido Brincar (infantil do Nós do Morro, de 1998, no qual ele iluminou e bolou um disco voador que atravessava o cenário e descia no palco, com marcianos e tudo), com Fred e tudo dentro, vai subindo aos céus, todo iluminado, tomando conta do firmamento. 


E não é que ele preparou o seu melhor truque, o grand finale, ali bem na nossa cara, Tal qual nos tempos da Grécia antiga, o nosso “Capitão Fred” levou o seu navio/disco voador cheio de luz para o espaço sideral. 
Pena que nós, comuns mortais, não tenhamos podido embarcar nessa nova Odisséia. Mas vai firme nessa nova jornada, meu caro. Ilumina o palco do céu, mas não deixa de jogar uma luz pra cima da gente de vez em quando. Não era você mesmo quem dizia, puto da vida na cabina de iluminação: “Ator é fogo mesmo! A gente faz uma luz  pro sujeito e ele fica insistindo em ficar com a cara no escuro!”. 
Temos a certeza de que você não vai deixar a gente ficar na escuridão, né Fred? Abre mais essa geral e ilumina os rostos tristes que, hoje, choram pela sua partida tão inesperada. A gente vai seguindo em frente, na certeza de que você, que é parte integrante da nossa pequena história, vai continuar irradiando sabedoria e equilíbrio para a continuidade do nosso espetáculo. (por Luiz Paulo Corrêa e Castro)

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